O câncer de mama em mulheres jovens impõe uma decisão que vai além da oncologia: tratar a doença de forma agressiva ou preservar o sonho da maternidade. Nos casos classificados como RH+ (receptor hormonal positivo) — que representam cerca de 70% dos diagnósticos — o tumor depende de hormônios femininos para crescer. O tratamento padrão inclui endocrinoterapia, uma terapia hormonal que pode durar de cinco a dez anos e que frequentemente adia a possibilidade de gestação.
Esse foi um assuntos discutidos durante a Jornada Mineira de Mastologia. O encontro aconteceu no Hotel Mercure e reuniu especialistas para debater adesão à terapia endócrina, manejo de efeitos colaterais e planejamento reprodutivo baseado nas evidências científicas mais recentes. O desafio não é apenas clínico, mas de gestão do tempo terapêutico: interromper ou não interromper o tratamento? Em que momento? Com quais riscos?
Segundo Henrique Lima Couto, presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia – Regional Minas Gerais, e mastologista da Redimama, o avanço da ciência abriu novas possibilidades, mas não eliminou o dilema. “Há alguns anos, a maternidade após o diagnóstico de câncer de mama RH+ era vista com extrema restrição. Hoje sabemos que, em pacientes selecionadas, é possível planejar a gestação com segurança, desde que haja acompanhamento rigoroso e decisão individualizada.”
Estudos internacionais recentes indicam que a interrupção temporária da terapia hormonal para tentativa de gravidez pode não aumentar significativamente o risco de recorrência no curto prazo, desde que critérios clínicos sejam respeitados. Ainda assim, a decisão exige análise cuidadosa de risco oncológico, fertilidade e desejo reprodutivo. Henrique Lima Couto reforça que o tema envolve mais do que protocolo médico. “Estamos falando de mulheres em plena vida produtiva, muitas vezes antes dos 40 anos. O tratamento salva vidas, mas a forma como conduzimos esse tratamento também define qualidade de vida, projeto familiar e futuro.”
A Jornada Mineira de Mastologia propõe ampliar esse debate: como equilibrar segurança oncológica e projeto reprodutivo sem comprometer nenhum dos dois. Porque, para a paciente jovem com câncer de mama RH+, a pergunta não é apenas como sobreviver — mas como viver depois do tratamento.

