Entenda a punção de tireoide

Bom, agora é voltar a realidade. Finalmente o ano começou. Vou até a balança e me assusto. Vejo naqueles ponteiros todos os excessos do Natal, Ano Novo, Carnaval e Páscoa. Visto minhas calça teste, afinal a balança pode estar desregulada. A calça entra, mas fechar nem pensar.
Deito-me na cama, murcho a barriga, o feixe sobe com muita dificuldade, mal consigo respirar. Vamos lá, sem desespero. Dieta relâmpago, aquela atriz perdeu quatro quilos em uma semana. Desisto no segundo dia, estou fraca e minha cabeça dói. Como uma macarronada e me sinto melhor por algumas horas. Desespero novamente.  Não perdi nem uma grama.
Respiro fundo. Ligo para o endocrinologista. Marco para sexta-feira. Será que ele vai me passar algum remédio? Pergunto para a secretária.
– Olha, ele não é de passar remédio não, só se tiver alteração nos exames. Desligo e fico pensando, uma alteração leve, bem levinha… assim tomo os remédios e emagreço sem esforço.
Estou na consulta. O médico olha atento para o meu pescoço.
– D.Helena, tem um carocinho aí. Deixe-me examinar.
Falo logo:
– Tem nada não Doutor, é gordura. Vim aqui só para pegar uma receita… quer dizer… dieta.
Ele apalpa.
– Tem sim. É da tireóide. Vamos fazer ultra-som e exames de sangue. Se confirmar, que também uma punção.
Desespero, agora real. Esqueço a gordura, pneus, celulite. Levo a mão no pescoço. Ele está ali. – Como não o vi antes? Ligo e marco o ultra-som. Tiro sangue no mesmo dia. Minto: – O medico falou que é urgente preciso do resultado muito rápido.
Na sala de ultra-som me deito com o pescoço esticado, olhando a parede atrás. Tem um gatinho de espuma pregado de cabeça para baixo. Acho graça, mas não consigo sorrir. Acho que nem consigo respirar. A sala fica quase às escuras. A médica passa um gel no meu pescoço e começa o exame
– Prontinho! Vou te mostrar seu exame.
Tomo coragem e pergunto: é câncer doutora? Pode dizer, eu aguento.
Ela sorri. Não sei como pode ser tão calma vendo doença o dia todo.
– Nódulos da tireóide são muito comuns, principalmente em mulher depois dos 40 anos. Olha, pode ficar tranquila, pois a grande maioria dos nódulos é benigna. O câncer de tireoide é raro.
– Doutora, tenho meda da punção
Ela sorri e aperta minha mão.
– Que nada, é igual tirar sangue, só que no pescoço.
Chegou o dia. Lá está a Doutora – E aí? Pronta? Deito e olho pro gatinho virado. Vamos nesta amiga. Sabão gelado. Uma dorzinha do anestésico. Espero pelo pior. A Dra. tira as luvas e diz:
– Você brilhou. Agora é só esperar o resultado da citologia.
– Como? Já acabou?
– Sim. Prontinho. Tenho vontade de beijar a Doutora. Saio toda feliz.
Três dias depois tenho vontade de matar a Dra. Ela fez alguma coisa errada. O laudo disse: “material insuficiente”. Porque não demorou mais e fez direito. Ligo para ela. A voz doce e tranquila me desarma.
– É assim mesmo. Punção de tireóide é como pescar em um aquário com uma pequena redinha. Temos aquários repletos de peixes, cada passada e a rede vem cheia. Aquário sem peixe e com muita água, a rede vem vazia. Não se preocupe, vamos repetir e saiba a maioria dos nódulos benignos são aquários com poucos peixes.
Repito a punção. Resultado: “Bócio colóide”. Corro na internet. Graças a Deus é benigno e pequeno assim nem precisa operar. Hora de pagar as promessas feitas. Doce só ano que vem.
Quatro meses depois. Visto minha calça teste. Está levemente folgada. Vou trocar a promessa, afinal ficar sem um docinho ninguém merece!
Drª. Tereza Cristina Ferreira Oliveira

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